Era uma vez uma cadeira. Velha, vacilante, em péssimo estado de conservação. Sua pintura estava toda enrugada, gasta, a cor desbotada. Verdadeiramente um desastre ! Não podia mais sustentar o proprio peso, que aumentava de ano para ano. Arranhões, sujeira, manchas, pés frageis, pedaços quebrados. Não chegava mesmo a se lembrar de sua beleza primitiva. Uma camada de pintura, após outra, era toda a sua vida passada. Parecia tão mal que alguns sugeriram até cobri-la para nao ferir a visão dos outros. Vez por outra, uma nova retocada na pintura, melhorava. Depois, novamente, rachava e descascava de alto a baixo, tornando-a pior que antes. Era preto em cima de vermelho, azul, verde, branco, amarelo, camada sobre camada. Pobre cadeira ! Como se lembrar de como era, sob tantas camadas sucessivas de pintura?Um belo dia, entretanto, ela se viu entre as mãos de um marceneiro. Não sabia mesmo como havia chagado lá. Havia sido triste ter chagado ali na pressa, aos empurrões e sacudidas no fundo de um caminhão. Mas, enfim, já estava ali. Não queria, porém, prestar atenção em nada. Afinal, ja havia passado por tantos lugares mais ou menos edênticos. O marceneiro tomou a cadeira e lavou-a a cuidadosamente. Havia algo no seu jeito intrigou a cadeiea. Aí, deixou passar e se resignou ao perceber uma nova camada de pintura. E como doía! A cura, entretanto, estava nestas mãos que a machucavam. Pacientemente, o marceneiro ia de camada em camada, cantarolado para ela: "Cadeira, o marceneiro te conhece, tua real beleza, ele a conhce, ele sabe que tu nao és irreparavel, senão pela graça de teu cuidado amável". O canto acalmou um pouco a cadeira. Ela não sabia, porem, oque pensar. Oque estava acontecendo? Por que parecia mais pesada? " Eu não agüento mais", pensava ela, "parem com isso, cubram-me, deixem-me só". Dia após dia, contudo, o marceneiro perseverava. Oh! Sim, por vezes dava alguns dias de repouso à cadeira. Que alívio sentia, ainda que estivesse terrivelmente consciente de que falatava muito em seu caminho. Dolorosamente, o marceneiro foi atravessando, pouco a pouco o preto, o vermelho, o azul, o verde, o branco. A cadeira percebeu, então, uma mudança no modo de adir dele. Senpre cheio de cuidados, tornou-se mais cuidadoso ainda para evitar qualquer ferimento. Na ultima camada, o amarelo, quano este começou a sair, a cadeira, num primeiro respiro vital, teve uma ideia do que se encontrava debaixo. Não tinha mais pintura, mais madeira. Madeira maravilhosa. Começou, assim, a compreender a ação do marceneiro e porque seu tratamento havia mudado na derradeira camada: para nao atingir a bela madeira que se revelava agora. A cadeira estava apressada no desejo de se ver melhor. Pouco a pouco, a madeira apareceu plenamente. Que sensação de prazer e glória! Que revelação! Ela cantava e dançava alegremente. Com esse sentimento, abandonou o marceneiro para viver livre da pintura, livre para ser ela mesma. Enfim, não tinha mesmo necessidade dele! A vida parecia como uma realidade nova, exitantes, pela primeira vez depois de muito tempo. Aos poucos, entrentanto, os sinais de gloria se dissiparam. Às vezes, passava pelo marceneiro e via que outras cadeiras, mesas, moveis se reconstituiam por suas mãos para reecontrar seu esplendor natural. Pareciam, mesmo, refletir a beleza do proprio marceneiro. Era estranho constatar que nao havia percebido, antes, como sua madeira era rústica e sem brilho. Humildemente, voltou ao marceneiro e passou muito tempo com ele. Em lugarr de ocupar-se com milhares de coisas, permanecia ao seu lado. Num certo dia, ele lhe disse: " Penso que voce esta preparada". Tomou-a, novamente, e a esfregou com uma lixa (e como machucava!). Só agora, porém, sabia que o marceneiro era conhecedor do seu trabalho. Ele esfregava, pega outra lixa, mais fina. E como foi bom desta vez! Jamais sentiu massagem tão agradável!. Em seguida, ungiu-a com uma estranha substancia que realçou a cor da madeira e sua beleza, acrescentando-lhe um toque delicado, doce acetinado. Ela jamais se imaginou tão bela! Por orgulho, a cadeira chamou alguem que passava para senta-se, mais quese se quebrou toda, esquecia da fragilidade de suas pernas. Amedrontada correiu pra o marceneiro que a fez espera um momento, para fazê-la tomar consciência de sua propria fraqueza. Depois, colou-a com solidez, comunicando-lhe um pouco de sua força. Alguns dias, mais tarde, olhando-se a cadeira percebeu alguns risco, um pouco de poeira aqui, um ponto machucado ali. Foi tomada pelo pânico: um velho medo vindo à superficie, com a ideia de ser recoberta de pintura. Desesperada, agitou-se. Depois, parando, olhando longamente o marceneiro, veio-lhe a luz definitiva. Tinha necessidade dele nao somente uma vez, mais para sempre. Havia sido restaurada e era atraves dele que poderia continuar a crescer em beleza. Precisava ser desempoeirada por ele, limpa, lixada, para guardar sua solidez. Sim, já nao era possivel pensar em levar uma vida independente, mais tambem nao precisava mais temer as camadas de pintura.
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